Verso e Reverso

Maio 8, 2008

Pensamentos de liquidificador

Arquivado em: O mundo de Laila — laila @ 2:53 pm
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Fiquei pensando outro dia que eu talvez seja uma pessoa que faz altos investimentos amorosos. A lógica do mercado dita que o bom investimento é aquele que traz o melhor retorno. E que ganha mais quem tem mais sangue frio para apostar alto. Tem que conhecer o mercado e ter uma boa dose de paciência para não se desesperar quando as ações caem, por exemplo.

Bem, relações amorosas não são investimentos de mercado, ditados por uma lógica do capital. Mas, se a metáfora do investimento financeiro é capenga para explicá-las, numa coisa talvez elas se igualem: quem investe amorosamente também espera retorno. Há que ser assim.

Não existem relações desinteressadas. Em nenhuma instância, mas principalmente em se tratando de investimentos afetivos de qualquer sorte. Quando duas pessoas se encontram, seja qual for a natureza da situação, sempre há um vetor que as orienta para algum tipo de satisfação, seja ela sexo, aconchego, cuidado. Não importa o que seja, o interesse estará sempre lá.

Isso acontece não porque sejamos ‘interesseiros’ no sentido raso da palavra. Nossa tradição cristã ensina que devemos nos doar sem esperar retorno. Mas por vezes esquecemos que no livro da tradição está escrito que devemos amar o outro como a nós mesmos. Portanto, se quero algo para o outro, devo querer primeiro para mim. O Outro é essencial na economia das relações, claro, já que ele me dá a medida do meu próprio eu. No entanto, eu preciso vir sempre em primeiro lugar.

Logo, não é errado que as relações sejam interessadas. É inerente ao ser humano um estado de ‘falta’ que precisa ser preenchida. É isso que impulsiona o desejo. É isso que faz de mim e do Outro seres desejantes. Quem não tem falta não tem desejo. Quem não tem desejo já morreu e não sabe. Se esse desejo é saudável, vou querer sempre que meu parceiro tenha aquilo que quero para mim. Meu interesse, minha necessidade de preencher a tal falta precisam ser proporcionais ao meu desejo de também me doar. De estar inteira e convicta nas coisas que faço. Ainda que uma relação esteja orientada apenas para a satisfação sexual; não importa. No meu caso, eu sempre me entrego e é nesse sentido que digo que meus investimentos são altos. E também por isso as expectativas são tão altas quanto.

Eu procuro não fazer nada pela metade. E também não sei jogar. Outro dia uma amiga me ‘acusou’ de não saber jogar o jogo do amor. Porque eu colocava tudo na mesa, mostrava logo de cara qual era o meu interesse na coisa e não ficava de subterfúgios. Bem, se isso é defeito, eu admito: não sei jogar mesmo. Se, por exemplo, eu e uma pessoa chegamos ao ponto de termos certa clareza acerca do que queremos um do outro, não vou fingir que estou desinteressada só para ‘fazer o preço das ações subirem’.

Eu sempre acreditei que a lógica binária do mercado não pode ser boa para traduzir investimentos amorosos. Se quero sexo, e apenas isso, vou dizer. Se estou sentindo que estou me envolvendo, vou deixar claro também. Foda-se o resto.

Se o outro me acha ‘carente’, pior pra ele. ‘Carentes’, no sentido de ter uma falta, todos nós somos. Triste de quem não admite isso e vive como se pudesse ser auto-suficiente. Essa palavrinha tão pejorativa, ‘carente’, na verdade, traduz a minha, a sua, a nossa condição. Sou carente, tenho uma lacuna e meu desejo me compele a querer preenchê-la. A questão, entretanto, é: preciso saber que ninguém será capaz de mitigar a falta por completo.

Tendo isso em mente, as coisas se relativizam e eu encontro certa ‘paz’. Saber que a busca nunca vai terminar e que daqui a pouco esse desejo irá migrar para outro ser ou objeto (homem, mulher ou a coleção inteira de sapatos Marc Jacobs) é algo saudável, pois não me deixa à mercê do outro.

Ninguém preenche ninguém; ninguém completa ninguém, diz a sabedoria popular. Isto posto, me sinto à vontade para dizer ‘amo você’, ‘preciso de você’, ‘te quero’, ‘você é importante para mim’. Sabendo que isso sempre será - e deverá ser - a verdade mais provisória da minha vida.

9 Comentários »

  1. Caramba… amei o texto,

    “Sou carente, tenho uma falta e meu desejo me compele a satisfazê-la”

    realmente é a sua e também a minha condição, graças a Deus! E acredite… não é só o desejo, mas também essa falta nos faz vivos, vivíssimos!!!

    beijos

    Comentário de Three Love´s — Maio 8, 2008 @ 3:04 pm

  2. olá, querido, obrigada. e desculpe, mas eu modifiquei o trecho que vc selecionou ligeiramente. agora está assim: “Sou carente, tenho uma lacuna e meu desejo me compele a querer preenchê-la”

    o sentido é o mesmo, mas eu achei que tinha muita ‘falta’ numa frase só. que bom que vc gostou. um bj

    Comentário de laila — Maio 8, 2008 @ 3:10 pm

  3. Acho muito interessantes estas questões. Só que, não sei porque, não gosto muito de as debater em blogs. Gosto de ler quando os outros escrevem, mas prefiro acrescentar os meus dois centavos, como diriam os nossos primos do norte, ao vivo, de preferência em uma mesa de bar.

    Comentário de Bob — Maio 8, 2008 @ 7:40 pm

  4. nem tanto céu nem tanto à terra no jogo da seduçãoe do amor.

    Comentário de Ricardo Rayol — Maio 8, 2008 @ 7:49 pm

  5. oi, bob. eu entendo o teu ponto de vista; às vezes comentários apressados podem dar margem a interpretações errôneas. eu passei a comentar em blog bem menos depois que me dei conta disso. na verdade, eu sou melhor escrevendo do que falando. pra falar sobre isso, só no divã. qualquer dia desses você a daminha vão poder me dizer quais são os dois centavos que gostariam de acrescentar.

    ricardo, de jogos eu não entendo, como já expliquei. e menos ainda de meios-termos. nessas questões de amor, para mim, não existe terceira via, não. bjs!

    Comentário de laila — Maio 8, 2008 @ 9:13 pm

  6. belo texto….como de costume !
    bjssssssssssss

    Comentário de Renata — Maio 8, 2008 @ 9:27 pm

  7. Oi meu amor, tae um dos nossos encontros… eu também não sei jogar, não gosto e não quero. E é um saco porque por vezes parece que é exatamente isso que as pessoas esperam… Se vc se joga demais é porque se jogou demais, se vc se joga de menos é porque se jogou de menos… Cansei! Não sei ficar fazendo esses rodeios, dizendo por menos, me contendo… não dá!

    Talvez até por isso mesmo é que a vida esteja ficando tão mais interessante, afinal as cobranças vão se reduzindo… Aleluia!!!

    Comentário de Demian — Maio 9, 2008 @ 12:46 am

  8. “Tendo isso em mente, as coisas se relativizam e eu encontro certa ‘paz’. Saber que a busca nunca vai terminar e que daqui a pouco esse desejo irá migrar para outro ser ou objeto (homem, mulher ou a coleção inteira de sapatos Marc Jacobs) é algo saudável, pois não me deixa à mercê do outro.”

    Precisa dizer mais alguma coisa????

    beijos

    Comentário de Sentimental — Maio 10, 2008 @ 6:21 pm

  9. olah
    vlw pela visita
    t+
    vou dar uma boa olhada no teu blog
    ta mto bom

    Comentário de Josi Vice — Maio 10, 2008 @ 9:45 pm

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