
Durante toda a minha vida, de uma maneira ou de outra, direta ou indiretamente, sempre me vi às voltas com essa pergunta. Afinal, o que é ser uma mulher?
Quando eu era bem mais jovem, achava que ser mulher tinha a ver com ser bela. E eu, que não me achava nada bonita, comecei a desejar isso mais que tudo. Olhava as meninas lindas que passavam e achava que tinha que pelo menos tentar ser como elas. Como se isso fosse algo possível. Minha mãe sempre desencorajou qualquer traço de vaidade nas filhas. Preocupação com o cabelo, com fazer unhas, roupa nova e sandália de salto? Pra quê? Mulher tem que ser inteligente, enfiar a cara nos livros e provar que é melhor que os machos de plantão. E lá foi a Laila se enterrar em montanhas de livros, enquanto esperava ser notada pela seu esforço intelectual. Depois disso, comecei a achar que para ser uma mulher de verdade eu precisava ser independente. Precisava me bancar. Aí homem nenhum iria tirar onda comigo. Cheguei até a pensar que pra ser uma mulher de verdade eu tinha que ser mãe. Mas não qualquer mãe e sim A mãe. Uma mãe que só precisaria do sêmen do macho para fecundá-la e olhe lá. Depois criaria o rebento sozinha, sim senhor. Era preciso marcar essa diferença de um modo bem enfático. Uma mulher seria, então, apenas e tão somente o ‘não-homem’. Mas seria mesmo?
Todas essas coisas eu fiz, mas elas não elucidaram muita coisa. Para me ajudar nessa tarefa difícil que era chegar à essência do que é ser mulher, comecei a prestar atenção no discurso das feministas, dos ativistas de direitos humanos, dos intelectuais, das mães solteiras, das mães casadas, dos jornalistas de plantão, qualquer um, por mais desencontrado que fosse. Então eu avaliava, pesava, ouvia, ponderava. E, depois disso tudo, ainda não tinha achado a resposta. No fundo, eu acreditava que em algum lugar, algum um dia, viria a entender o que faz de uma mulher uma mulher. Então, continuei me perguntando: por que, apesar de terem a mesma anatomia no meio das pernas, algumas mulheres pareciam carregar a chave para a minha questão muito mais do que as outras? Em que fenda se escondia o segredo?
Fiquei sem resposta por muito tempo e só fui capaz de entender tudo depois de conhecê-la. Ela, a menina dos olhos mais verdes e da boca em formato de rosa. E pensar que nós duas somos tão diferentes. Eu mais longa, de ossos maiores, menos peito; ela pequena, cheia de curvas sinuosas, um peito lindo de encher a mão, pezinhos de boneca. Eu poderia suspendê-la no ar, abraçá-la toda, envolvê-la e, ainda assim, seria ela a parecer sempre maior que eu, dominante e decidida. Minha dona. Talvez eu tenha encontrado a resposta no vácuo das nossas diferenças mesmo. É algo que escapa, mas que, ao mesmo tempo está lá. Não é objetivo, mas também não é imaterial. Está, por vezes, no jeito em que ela joga os cabelos, ou na maneira como me olha enquanto me faz carícias. Um olhar que definitivamente me marcou para sempre. E eu pedia a ela “Me olha, olha para mim”, enquanto experimentava o quase-êxtase, quando a língua macia escorregava em meu peito. Por vezes, eu achava que a síntese de tudo estava ali, na curva da cintura dela, no lugar onde o quadril começa, desenhando a bunda mais erótica que eu já toquei. Aquela curva, aquela cintura mereciam um feriado nacional, um monumento em praça pública. Ela fez amor comigo sem reservas e fez com que eu esquecesse para sempre o significado das palavras medo, vergonha e receio.
Descobri que ser amada por ela me reconciliou com a minha própria feminilidade. No olhar que ela me devolve eu me vejo, me encontro, me reinvento. Compreendi, finalmente, que não foi preciso teorizar para achar a resposta que eu tanto queria. Ela a entregou a mim graciosamente, da maneira mais doce e maravilhosa. Vou amá-la para sempre por isso, não importa o que aconteça. Estamos separadas agora por alguns quilômetros. Não sei quando voltarei a vê-la, talvez breve, talvez nem tanto. Enquanto isso nos falamos, nos escrevemos, nos inscrevemos na história uma da outra. Sei que estarei com ela, de alguma maneira, até o final da minha vida. Ela, que depois de tantos anos de buscas, me revelou o que é ser uma mulher.